Há uma explicação biológica para as crianças não gostarem de legumes?


A maioria dos pais já tiveram de lidar com birras intermináveis dos filhos em frente a um prato de brócolos ou outro tipo de vegetais. A culpa pode mesmo ser da biologia, segundo revela um estudo científico do instituto Monell Chemical Senses Center, em Filadélfia, Estados Unidos, divulgado no mês passado. Apesar de os legumes serem essenciais para fornecer vitaminas e minerais, muitos têm um aroma amargo pouco agradável. Acontece que 79% das pessoas estão equipadas com uma variante de um gene (chamado TAS2R38) que aumenta a sensibilidade a este sabor.

Os dados indicam que seria um mecanismo de defesa natural contra os aromas azedos de comida estragada e contra substâncias químicas presentes nas plantas venenosas, que têm geralmente o sabor amargo. “Ao evitar este tipo de aromas, o organismo infantil estaria protegido de possíveis intoxicações alimentares graves nos primeiros anos”, explicou à SÁBADO Randy Seeley, investigador da Universidade de Cincinnati, Estados Unidos. Isso revela também porque é que, à medida que a idade avança, a maioria das pessoas se torna mais tolerante a paladares amargos: a acção deste gene atenua-se, uma vez que os adultos já conseguem identificar com segurança o que é comestível, ao invés de um bebé que leva tudo à boca.

Segundo um estudo coordenado pela investigadora Julie Mennella, a língua humana tem poucos tipos de células com receptores químicos para detectar os aromas doces, mas está equipada com pelo menos 27 tipos de receptores para diferentes sabores amargos, tornando-se assim um poderoso instrumento para evitar uma grande variedade de plantas e produtos animais potencialmente perigosos para a saúde.

A biologia também ajuda a explicar a preferência por produtos de origem animal nos primeiros anos de vida (como a carne, lacticínios e ovos). Mais uma vez, esta é uma forma de o organismo procurar alimentos ricos em proteínas, essenciais para o crescimento. O gosto por produtos adocicados na infância, que se prolonga até à adolescência, está relacionada com a busca de energia, presente nos açúcares do leite materno.

O problema é que nas sociedades modernas estes alimentos açucarados, que em tempos eram escassos, estão hoje facilmente acessíveis e são muito baratos. E aquilo que era uma defesa natural tornou--se agora um problema de saúde pública de grandes proporções. Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de excesso de peso e obesidade infantil, atingindo 32% na faixa etária entre os 7 e os 8 anos. Ou seja, quase um terço das crianças têm este problema, segundo os dados da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil.

em: http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/Alimentacao/Fotogaleria-%2814%29.aspx

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